terça-feira, agosto 03, 2004

O Comboio - Poema de Ramiro Vidal Alvarinho

O comboio, animal asmático
Introduz-me na boca da besta
E eu revivo
A fisonomia vertiginosa dos arrabaldos.

O meu diálogo interior é com um sujo vinilo
Que tem tatuados os riffs daquele combate
Que um dia tivemos com a puta que pariu o mundo

Aquela épica que hoje já apenas se conserva em nebulosa

A besta, bebedora de azeite industrial, hoje é um cadáver onde moram

Dúzias de miles de missérias

Tu que foches a minha caverna e a minha deusa assassina

Hoje és umha seca bosta de vaca infectada de glória ressessa e sem sentido

E eu fago skate-board num metálico lóstrego que lambe, provocador, com lascívia

Os muros que chucharom a nossa juventude

Como saudando fachendoso
Umha parte mutilada do meu corpo




1 Comments:

At 5:41 AM, Blogger velaquí as serpes do amor said...

Vou do meu tren de fin de semana ao teu comboio, animal asmático, numa noite de insónia. Som seis e meia da manhã e venho aqui refrescar-me com a boca resseca do pesadelo. Avivento. Estes são os poemas de que gosto: urbanos, alienação e decadência entre o asfalto, haxixe adulterado e todas essas coisas que tão bem sabes exprimir. Trata-se de poesia, "Tem o demoníaco júbilo da poesia?" (Herberto Helder). Eu acho que sim, que vocé tem... nom perca.

 

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