quarta-feira, julho 13, 2005

Quê mais tem oito que oitenta?

Hoje vou falar de um episódio que passará a fazer parte do meu extenso anecdotário negro sobre língua. A aversom que tenhem alguns galego-falantes naturais à palavra "oitenta". É curioso, tinha escuitado muitas vezes, mais bem em tom de piada, comentar ao Maurício Castro como o pessoal galego-falante contava os cartos em espanhol, seguramente por assomir que assim era mais fiável ou mais sério. Bem. Eu trabalho numha frutaria. Há nom muito tempo tivem que cobrar umha conta de três oitenta e sete. Eu sempre falo em galego com os e as clientas e clientes, inclusso com @s nom galeg@s. Mas dá-se a casualidade de que esta senhora sim é galega e aliás, a certos níveis, galego-falante. Desde logo, nota-se que como primeira língua tivo o galego.
Bem, repetim-lhe até três vezes três oitenta e sete. Ela dezia que lho repetesse, que nom percebia. Eu num princípio, inocente de mim, pensei que o problema era que eu nom vocalizava bem ou que nom falava suficientemente alto. Depois compreendim que o problema era que estava a dizer "oitenta". Entom eu dixem alto e claro "três-oito-sete". E ela dixo-me, "Ai, bom, é que eu assim como mo dezias nom cho entendia". E depois, como procurando a cumplicidade da minha nai, que é ao mesmo tempo a minha chefa no trabalho, comentou que a ela "nom lhe gostava o galego", que quando via algum artigo escrito em galego na imprensa nom o lia e que nom compreendia porquê a gente que escrevia em galego nom o fazia num idioma que todos percebéssemos. A isto eu respondim que nom queria, pola parte que me tocava, no meu país, falar nem escrever noutra cousa que nom fosse galego. À partir de aí, já podedes imaginar a discusom.
A questom é que eu nunca conhecim palavra que gerasse mais aversom. E nom é por resultar incompreensível, porque todo o mundo sabe o que significa oitenta, ou o pode intuir.
Quê país este...

3 Comments:

At 4:26 PM, Anonymous Mário said...

Pois eu lembro num congresso do ILGA um isolo que apresentava um relatório em que se "perguntava" se "ochenta" era um castelhanismo... Palabrita del Niño Jesús.

 
At 8:23 AM, Blogger tangaranho said...

Normal, há que levar a defesa do "ghalhegho do pueblo" até as últimas conseqüências

 
At 8:06 PM, Anonymous T. said...

Triplamente feliz, hoje. Consegui passar por aqui, li uma história divertidíssima e aprendi a não dizer o resultado de 4x20 :-)
Adoro estas idiossincrasias das línguas.

Abraço. T.

 

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